Friday, February 13th, 2009

Poção de Amor - VI

 

            Como todas as histórias, a minha também tem um fim.

            Foram muitos e longos os anos que eu demorei a perceber o significado de tudo aquilo que me tinha acontecido. Eu queria ter visto. Juro que queria ter percebido mais cedo. No entanto, o ser humano só adquire o conhecimento quando já não precisa dele.

           Nick tentara aproximar-se de mim, por diversas vezes. Mandava-me flores, escrevia cartões de um desespero suplicante e, uma vez, até me chegou a fazer uma  bonita serenata. Todavia, eu estava cega. Cega por um feitiço que não existia. Cega por algo que já morrera há muito tempo atrás. De facto, Conelli enfeitiçara a maldita caneta. Segundo ditam as regras da magia negra, quem possuísse o artefacto seria incapaz de amar os que mais lhe eram queridos. Mas, como não há regra sem excepção, todo aquele que amasse verdadeiramente, que desejasse acima de tudo ser feliz ao lado da pessoa amada e tivesse um coração livre e puro conseguiria quebrar o encantamento.

            Eu não possuíra esse coração puro, essa alma livre e destemida para amar.  Estava demasiado preocupada com as minhas acções, os meus medos e os meus fracassos. Fechara o olhos para a beleza da vida. Fechara os olhos para o canto dos passarinhos e o brilho esplendoroso de um raio de Sol. Colocara tudo em primeiro lugar, menos o mais importante. Tentara construir a casa, começando pelo telhado. Fizera tudo errado. Comportara-me como uma criança estúpida e mimada que só tinha a capacidade de contar as bonecas que existiam no seu pequeno mundo.

            Passado alguns meses, os telefonemas haviam cessado, as férias de verão estavam à porta e uma nova etapa das nossas vidas acabava de começar. Desde então, nunca mais ouvira o nome de Nicholas.

            Enquanto passeava à beira-mar, numa aprazível manhã de Verão, as ideias clarearam-se na minha mente. Quis correr e procurar Nick, quis abraçá-lo e pedir-lhe perdão, mas era tarde demais. Ele já refizera a sua vida. Casara-se com um mulher bonita, bem sucedida e que, acima de tudo, amava e cuidava dele. Eu não podia , agora, aparecer-lhe à frente, dizer que tinha cometido um erro descomunal, e estragar tudo aquilo que eles haviam construído.

            Não havia nada como suportar a dor dos nossos próprios erros. Talvez assim, aprendesse a dar valor às coisas.

                                                                                                                 Fim

 

P.s Obrigado a todos os que leram a minha pequena história.


Written by Rachel às 06:11 pm
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Wednesday, February 11th, 2009

Poção de Amor - V

     Isto, definitivamente, não me podia estar a acontecer. Como é que eu fora capaz de fazer tal barbaridade? Eu não sentia nada do que dissera. As acções haviam fugido à minha vontade. Eu magoara-o, tratara-o de forma absurda e ele nunca mais me iria querer ver à frente. Perdera-o para sempre. Era bastante compreensível, de facto.  Se alguém, alguma vez me fizesse algo semelhante, eu certamente teria a mesma reacção.

     Sentia-me a desfalecer. De um momento para o outro, a minha vida tornara-se um autêntico degredo. O que é que era suposto eu fazer? O que é que as almas que não tinham ninguém para amar fariam nos seus tempos livres? Tinha de tentar ver o lado positivo de toda esta situação. Pelo menos, agora já conseguia perceber o desespero de que algumas pessoas tanto falavam. Já compreendia a dor e a frustração que tinham de suportar. Na realidade, eu nunca havia assimilado todos estes elementos. Para mim, tudo sempre fora bastante fácil, desde que eu e Nick  nos conhecêramos. Estava errada. Imperiosamente cega e errada. Nunca tinha dado o devido valor à nossa relação. Nunca o valor merecido.

     Não me saía da cabeça: como é que eu fora perder o controlo daquela maneira? Parecia bruxaria. Em condições normais, jamais teria tais atitudes. Eu estava completamente fora de mim.

     - Ora viva,  Mrs. McKnie! – Conelli Knight acabava de fazer uma das suas magníficas entradas, pela porta semiaberta do meu quarto que aparentava um aspecto, definitivamente, caótico. A minha hipotética melhor amiga era um ser desprezível. A sua frivolidade ultrapassava os limites da decência humana. A criatura considerava-se superior a todo e qualquer ser racionalmente capaz. Os seus extravagantes cabelos castanhos esvoaçavam, normalmente, por tudo o que era perfume e revestimento masculinos. Na sua opinião, não havia vivalma que lhe pudesse chegar sequer aos calcanhares. Considerava-se o expoente máximo da beleza feminina.

     - Adeus, Conelli. – Estava farta daquela emproada. Farta da sua perseguição. Já não a suportava nem mais um único minuto. Desde cedo que ela se tentara aproximar de  mim e, pelos vistos, havia conseguido. Todavia, o final da linha chegara. – Sai do meu quarto. Desaparece da minha vida de uma vez por todas! – Afinal, o bruxedo até servia para alguma coisa.

     - Vais-te arrepender disto, sabias? – Cuspiu as palavras, tal como uma autêntica víbora o faria.

     - Depois de saber qual é a sensação de perder a pessoa de que mais amo no mundo, nada mais me afecta. – Murmurei com as lágrimas a formarem-se-me nos olhos.

 

P.s. Obrigado pelos comentários :D

I feel like...: Na Merda Para Variar
music: Broken Strings

Written by Rachel às 04:40 pm
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Sunday, February 8th, 2009

Poção de Amor - IV

        Senti um vento glacial atingir-me o corpo aquando do meu primeiro contacto com aquele estranho objecto mítico. Uma aragem tão grotesca e ameaçadora que faria estremecer o mais valente dos soldados. Algo poderoso e sobrenatural. Como se a mais diabólica das maldições tivesse acabado de se abater sobre mim.

      - Não gostaste? – Inquiriu Nick a medo. Como era possível que ele pudesse sequer imaginar que eu não iria gostar de um presente seu?! Ele conhecia-me por dentro e por fora.

      - É óbvio que não! Que te passou pela cabeça para comprares esta porcaria? – O que é que eu acabara de dizer?! Como é que eu pudera ser tão ingratamente estúpida?! As palavras estavam a fugir ao meu controlo. – Sai do meu quarto. Rua! Não te quero ver nunca mais!

 

P.s Eu sei que o capítulo é muto pequenino...masapeteceu me brincar com vocês :D


Written by Rachel às 03:53 pm
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Saturday, February 7th, 2009

Poção de Amor - III

- Larga-me! Deixa-me sair daqui! – Uma mão. Uma mão escura, e degrada teimava em manter-me prisioneira nas sombras. Uma densa coberta de fumo negro e fastidioso impedia-me de ver as feições do meu agressor. – Nick, ajuda-me! – Gritei histericamente enquanto o meu corpo suado se erguia na direcção de uma intensa luz matinal.

As minhas mãos tremiam louca e compulsivamente. O seu grito tinha a mesma frequência que tem a dor de uma mãe ao perder o seu filho recém-nascido. Lágrimas salgadas começaram a brotar, violentamente, do mais íntimo do meu ser. O meu coração chorava de amargura e desespero. O meu coração pressentia uma brecha dolorosa no meu destino, uma ferida que podia nunca mais vir a sarar.

- Happy Birthday, Sweetheart! – Por momentos, tudo aquilo que havia vivido com Nick, parecia não ter passado de uma miragem, da mais agradável das miragens. A sua presença no meu quarto não passaria de um desejo infantil, de um sonho inconcebível.

- Princesa, sentes-te bem? – Alguém me abanava carinhosamente o ombro. O seu rosto ostentava uma máscara de verdadeiro terror e preocupação descomedidos.

Quando percebi que o meu devaneio era real, agarrei instintivamente o esqueleto trémulo de Nicholas, esmagando o meu suposto bolo de aniversário contra os nossos corpos escanzelados. Tinha tanto medo de o perder. Ele era o meu mundo. O meu oxigénio quantizado.

- O que te aconteceu? – Perguntou, afastando-me com todo o cuidado. Nunca vira Nick tão inquieto e ansioso.

- Um pesadelo. Foi só um pesadelo. – Esbocei um sorriso forçado com o carvão que ainda me restava. Não devo ter sido suficientemente convincente, pois a sua preocupação não abrandara nem um só centímetro. – Vá, come um pedaço de bolo. – Dividi o que me pareceu ser uma fatia de bolo meticulosamente cortada com o auxílio das minhas duas mãos. Coagi Nick a experimentar aquele emaranhado de massa folhada e creme esbranquiçado com aroma a caramelo e baunilha.

- Tu também o devias experimentar. Está delicioso. – Gargalhou ao cobrir a minha boca com aquela massa de conteúdo duvidoso. Não havia nada que se equiparasse a  começar um belo dia, na cama, com a pessoa que mais amamos.  

- Alguma vez te expliquei o quanto te amo? – Murmurei lentamente com os lábios encostados ao seu ouvido.

- Parece-me que não. – Tentou provocar-me com um brilho malicioso a descoberto no olhar. – A propósito, esqueci-me de te dar a tua prenda. – Apressou-se a procurar o embrulho que se encontrava atrás de si. - Tchanan!

Os presentes. Eu sempre analisara as prendas que recebia de uma forma bastante peculiar. Para mim, o mais importante não era o conteúdo, mas sim, a surpresa. Está claro que, o seu significado também era muito importante. No entanto, o período de tempo em que se formava toda aquela expectativa do que seria ou do que não seria, fascinava-me.

O embrulho era delgado, possuía uma forma oval e uma laço distinto. Desmanchei o embrulho com esmero. Uma caneta. Uma bela e formidável caneta antiga bordada a ouro.

 

P.s Obrigado a todos os que comentaram. Vocês são espectaculares!


Written by Rachel às 10:55 pm
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Friday, February 6th, 2009

Poção de Amor - II

- Nicholas, pára! – Exclamei irritada. Por vezes, aquele ser presunçoso deixava-me mesmo fora de mim. As cócegas continuavam incessantemente. Como é que alguém conseguia ser tão estranhamente persistente?! – Já te disse para parares! – Ordenei tão seriamente quanto me foi possível. Não resisti ao seu encanto natural e desatámos os dois às gargalhadas, nos braços um do outro.

            - Por mais que te esforces, sabes que nunca conseguirás resistir-me! – Afirmou gloriosamente depositando-me um beijo carinhoso nos lábios.

            Felizmente, Nick tinha razão. Eu já não tinha capacidade para imaginar os meus dias sem o doce do seu sorriso, sem a magia do seu olhar ou mesmo sem a ternura do seu toque na minha pele caramelizada. Era-me impossível traçar um futuro onde o amante dos meus dias não existisse.

O destino havia-nos tornado inseparáveis pelas mais diversas e variadas razões. As circunstâncias em que nos conhecemos ficarão guardadas na minha memória para todo o sempre. Não há um único dia, em que não lembre daquela tarde solarenga de Abril junto ao rio. Eu saíra de casa para tentar esquecer os problemas que rodeavam a minha aura, habitualmente, congestionada. Para mim, não havia nada melhor do que um passeio ao ar livre para arejar as ideias. Sentei-me junto a um carvalho antigo e, do pé para a mão, desatei aos berros.

- Será que me consegues explicar? Explica-me porque é que estas coisas só me acontecem a mim? – Dirigia-me seriamente às águas do rio. Ao mesmo tempo, lançava-lhes, furiosamente, um emaranhado de pequenas pedras angulosas que perturbavam a profunda serenidade dos míticos seres que lá habitavam.

- Talvez a Mãe Natureza tenha inveja do verde dos teus olhos e, ande a virar o Deus lá de cima contra ti... – Quase caí à água quando ouvi uma voz aveludada junto do meu corpo. Não existia melodia mais harmonia. A partir daquele instante, a sua voz era como que uma droga, tornara-se o meu vício mais belo e apetecível.

- Not again! – Resmunguei entre dentes.

O nosso primeiro beijo teve como tela de fundo o pôr-do-Sol no mar. Os últimos raios de Sol fundiam-se com o azul-prateado marinho. Caminháramos, à beira-mar, enquanto partilhávamos um delicioso gelado de chocolate e morango com pepitas de chocolate branco. Estatelámo-nos na areia enquanto lutávamos, carinhosamente, pelo último pedaço de bolacha. Nesse momento, o corpo de Nick moldava o meu por inteiro. As nossas bocas aproximaram-se muito devagar. Os nossos lábios tocaram-se. Os nossos corações palpitavam sincronizadamente. O mundo parou por alguns segundos. Existíamos apenas nós os dois. Dois corpos sedentos de desejo, duas almas unidas pelos laços do amor eterno. Um emaranhado de sentimentos incandescentes.

- A sonhar acordada, princesa? – Nick analisava cuidadosamente a minha expressão.

- Não preciso de sonhar quando tu estás aqui mesmo ao meu lado.  – Abracei-o com toda a minha força. Momentaneamente, senti uma vontade insuportável de nunca mais o largar. Queria ficar assim para sempre.

 

P.s Obrigado`pela music Prongs. Obrigado  Best, Puky,  Ana, Blondy, Manel, Costa. Espero também te poder agradecer Lopes

 

 


Written by Rachel às 09:55 pm
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Thursday, February 5th, 2009

Poção de Amor - I

          Há muitos, muitos anos atrás, numa terra distante e solitária cresceu uma bruxa depravada... Ela não nascera bruxa! Houve tempos em que Conelli fora apenas uma  criança que, como todas as outras, necessitava do carinho e da atenção dos seus pais. Foi aí que começaram os problemas. A pobre idiota não percebia que os seus pais não prestavam, não percebia que as palavras ríspidas e os maus tratos não eram exemplo para ninguém. Quando tentou fazer amigos utilizou os mesmos modos agressivos a que estava habituada, e acabou por perder todos os que alguma vez teve a capacidade de amar.

No dia em que completou o seu décimo oitavo aniversário, Conelli partiu numa busca longa e solitária pela felicidade. Sem saber o que fazer ou para onde ir, tomou o caminho mais fácil e, também, o mais penoso: dirigiu-se para uma densa e profunda floresta situada perto dos cumes de um vulcão activo. Os terrenos eram férteis e produziam as mais intensas plantas medicinais e afins. 

No local mais recôndito da Floresta das Tríadas, existia uma velha caverna abandonada que lhe serviu de refúgio, numa infernal noite de tempestade. Ao tropeçar num rebordo de madeira de dimensões insignificantes, Conelli descobriu uma passagem secreta para uma biblioteca subterrânea. Ao que parecia, o seu porto de abrigo já havia sido habitado anteriormente.

Começou por pegar num velho exemplar de capa dura que aparentava possuir várias centenas de anos. O seu mundo parou por alguns segundos. A cura para a sua dor parecia encontrar-se diante dos seus olhos. Feitiços. Bruxaria. Magia negra. Cura para a infelicidade humana, sim, esse fora o título que mais lhe chamara a atenção.

Trabalhou arduamente durante longos meses. Pesquisou sobre plantas, técnicas de confecção e os melhores sítios para encontrar os ingredientes de que necessitava.

 

Cura para a infelicidade humana

 

            Ingredientes:

· 500 g de Pimpinella anisum

· Uma folha de Urtica urens fresca

· Saliva de unicórnio

· Uma pitada de sal-amor

· Leite de cabra q.b.

 

Procedimento:

· Ferver num caldeirão as 500 g de Pimpinella anisum com um pouco de leite de cabra, até formar uma densa nuvem de vapor.

· Adicionar a folha de Urtica urens fresca e a saliva de unicórnio. Misturar cuidadosamente.

· Por fim, aromatizar com uma pitada de sal-amor. Beber ainda quente.

Nota: Surte maior efeito se preparado numa noite de lua cheia.

 

           Chegara, finalmente, a derradeira noite. Estava tudo preparado até ao mais ínfimo dos pormenores. Nada poderia correr mal.

           E, assim foi. Conelli tomou a poção ainda antes da meia-noite.

 

***

 

           Os dias passavam mas nada acontecia. A bruxa sentia-se cada vez mais impaciente. Não conhecia o aspecto da felicidade, contudo duvidava que fosse parecido com aquilo que havia vindo a sentir naqueles últimos tempos.

            A amargura corrompia o que ainda de aceitável lhe restava no coração. Não havia maneira de sentir algo de bom. Por mais que desejasse, o vazio não desaparecia. O azedume era de tamanho tal, que a tornava incapaz de pensar sequer em suportar a felicidade alheia.

           Um pressentimento de morte assolava-lhe os pensamentos. Something like a nightmare. Conelli tinha a noção de que ia morrer dentro em breve.

           Queria vingar-se das pessoas que a repudiaram. Queria vingar-se do mundo que a abandonara. Iriam arrepender-se amargamente.

          “O Amor. Toda a gente sobrevaloriza o Amor. O Amor é o tesouro mágico e precioso que move as pessoas. Então, vamos tirar-lhes a vontade de viver!” pensou a depravada.

 

***

            O vulcão da Floresta das Tríadas entrou em erupção na Primavera de 1977. A lava soterrou a caverna da bruxa e tudo o que ela continha.

 

             P.s. Obrigado best...Foi ela que decorou o Blog!

 

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Written by Rachel às 07:05 pm
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