Diva obrigou-me, silenciosamente, a abrir caminho até aos lavatórios femininos. Agora, podia afirmar, com toda a certeza, que estava aterrada.
- Achavas mesmo que eu não dava pela tua presença, huh? – Gargalhou tristemente. Se eu não estivesse completamente descontrolada, diria que a minha futura assassina estava mais apavorada do que eu. – Já chega conversas...Entra aí e não me faças perder a paciência! Até te vou fazer um favor. Podias ter de ficar a apodrecer na cadeia durante uns bons pares de anos.
Mantinha-me calada. Nada como morrer com alguma dignidade.
- Qual é o teu último desejo? – A derradeira formalidade. Permanecia sentada numa tampa de sanita.
- Sai daqui, Diva! Porque é que tinhas de ter metido neste assunto?- Debora apareceu do nada, renascera de cinzas esquecidas. A sua expressão emanava uma demência reprimida, uma loucura assassina.
- Porquê? Porque sou tua irmã, minha pobre idiota! Porque te amo e não te quero ver atrás das grades, a apodrecer por causa de um amor não correspondido! Porque tu és uma porra de uma imperialista, com a mania das superioridades. – A surpresa não chegava para encobrir o desgosto patente nas suas palavras amargas.
Fiquei sem saber o que fazer. Um momento de família! Eu, não estava de todo, preparada para tal situação.
- Eu... desculpa ... não te quero meter nisto. – Lamentou sinceramente.
Pum!
Um tiro. Uma bala certeira no coração. Uma vida tirada, outra destruída.
Donatella empunhava uma arma de fogo por entre as suas mãos trémulas. Todo o seu corpo reagia violentamente àquele atentado. As lágrimas não paravam de correr pelas suas faces atormentadas.
- Ela assassinou a minha razão de viver. A minha irmã não merecia viver. – Caiu, prostrada no chão de joelhos. Ouvi o segundo disparo daquele dia. Donatella suicidou-se, e assim, seguiu caminho para junto da pessoa que mais amava.
A navalha que Diva, anteriormente, amparava na minha direcção voou sobre o soalho com uma melodia abafada.
Fim
Não é o último, ainda...
Sentia medo. O simples e aterrador medo de falhar. Como poderia viver comigo mesma se não conseguisse vingar a morte do meu único, sincero e leal amigo? Como poderia olhar-me ao espelho, daí em diante, e ver apenas uma mulher derrotada pelas atrocidades da vida? Elas eram tão aterrorizadoramente belas. Como iria eu, a mais comum das mortais, provar que uma delas havia cometido tamanha barbaridade?
Entrei num táxi com a máxima discrição possível. Pedi-lhe que seguisse o volumoso Mercedes preto onde entrara a família real e rezei baixinho para que tudo desse certo. Não que eu alguma vez tivesse acreditado que, outrora tenha havido um Messias que descera dos céus por meio da Virgem Maria, a fim de nos absolver a todos nós. Mas sim, porque precisava de acreditar em alguma coisa superior a mim e à minha fraca existência. Precisava de ter fé. Precisava de uma convicção em que me apoiar. Precisava de voltar a respirar. Tinha a sensação de que todo o oxigénio que havia à minha volta, se estava a esgueirar por uma porta entreaberta, uma porta que devia estar mais do que trancada, uma porta que devia estar destruída, aniquilada, queimada com o fogo amaldiçoado do inferno.
A cerca de meio quilómetro de distância, vi o seu carro entrar pelo portão de uma mansão abrilhantada e colossalmente elegante. Ordenei, abruptamente, ao taxista que parasse o carro. Já sabia onde caçar a minha presa e não queria, de todo, ser descoberta.
Paguei, saí do automóvel e dirigi-me ao bar mais próximo. Não me sentia em casa, nem nada que se parecesse, contudo não tinha meios ou tempo para fazer algo melhor. Resguardei-me numa cadeira ao fundo da sala e esperei que um anjo da morte me tomasse nos seus braços gelados.
- Por aqui, boneca? – Senti os meus pêlos das costas eriçarem-se quando a lâmina afiada de uma navalha me roçou a pele. Era o fim.
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