Não é o último, ainda...
Sentia medo. O simples e aterrador medo de falhar. Como poderia viver comigo mesma se não conseguisse vingar a morte do meu único, sincero e leal amigo? Como poderia olhar-me ao espelho, daí em diante, e ver apenas uma mulher derrotada pelas atrocidades da vida? Elas eram tão aterrorizadoramente belas. Como iria eu, a mais comum das mortais, provar que uma delas havia cometido tamanha barbaridade?
Entrei num táxi com a máxima discrição possível. Pedi-lhe que seguisse o volumoso Mercedes preto onde entrara a família real e rezei baixinho para que tudo desse certo. Não que eu alguma vez tivesse acreditado que, outrora tenha havido um Messias que descera dos céus por meio da Virgem Maria, a fim de nos absolver a todos nós. Mas sim, porque precisava de acreditar em alguma coisa superior a mim e à minha fraca existência. Precisava de ter fé. Precisava de uma convicção em que me apoiar. Precisava de voltar a respirar. Tinha a sensação de que todo o oxigénio que havia à minha volta, se estava a esgueirar por uma porta entreaberta, uma porta que devia estar mais do que trancada, uma porta que devia estar destruída, aniquilada, queimada com o fogo amaldiçoado do inferno.
A cerca de meio quilómetro de distância, vi o seu carro entrar pelo portão de uma mansão abrilhantada e colossalmente elegante. Ordenei, abruptamente, ao taxista que parasse o carro. Já sabia onde caçar a minha presa e não queria, de todo, ser descoberta.
Paguei, saí do automóvel e dirigi-me ao bar mais próximo. Não me sentia em casa, nem nada que se parecesse, contudo não tinha meios ou tempo para fazer algo melhor. Resguardei-me numa cadeira ao fundo da sala e esperei que um anjo da morte me tomasse nos seus braços gelados.
- Por aqui, boneca? – Senti os meus pêlos das costas eriçarem-se quando a lâmina afiada de uma navalha me roçou a pele. Era o fim.
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